Júlio, o sincero

Kellyane Alexandra entrou ofegante no elevador, carregando um marmitex meio aberto. Tirou o pedaço de torresmo que prendia entre os dentes e o colocou sobre a tampa, para cumprimentar Júlio, que havia segurado o elevador:

- Obrigada!
- Por nada.
- Boa tarde, coleguinha!
- O que você quis dizer? Que me deseja uma boa tarde, ou que está uma boa tarde, quer eu o queira ou não?
- Hã?
- Deixa pra lá... Eu estava apenas brincando com a passagem de um livro que você, pelo visto, não leu.
- Quem disse que não?
- Para começar, você não entendeu a referência. Além disso, você não tem cara de quem gosta de ler.
- Eu gosto sim!
- Não sabia que sua espécie havia se desenvolvido assim...
- Hmpf! Ano passado eu li um livro da Zíbia Gaspareto, viu?
- ...
- Hmmm, que cheirinho bom tá esse tropeirinho, né? Eu adoro um tropeirinho!
- Pois é...
- Eu preciso emagrecer, mas eu não resisto a um tropeirinho.
- Percebe-se.
- Você é muito grosseiro, colega!
- Olha, eu não sou seu colega. Apenas fiz a gentileza de segurar a porta do elevador, quando a vi correr penosamente com esse marmitex na mão. Além disso, grosseiro é esse torresmo que, só de olhar para ele, meu colesterol já subiu.
- Você não gosta de torresmo?
- Não.
- Você gosta de alguma coisa, cole... Desculpe. Qual é o seu nome, mesmo?
- Júlio.
- Meu nome é Kellyane Alexandra, mas minha mãe sempre disse que o correto é falar "Alecsandra".
- Como se eu me importasse... Bom, meu andar chegou. Boa tarde para a senhora.
- Senhorita, por favor. Eu não me casei ainda.
- E nem vai, se continuar com esse cabelo avermelhado e essas mechas amarelas. Desse jeito, o máximo que você conseguiurá é um homem que tenha um fetiche pelo Yu-Gi-Oh.
- Quem?
- Desculpe-me, mas agora eu tenho que ir.
- Vai então, Sr. Espertinho! Hmmm, torresmo...

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