Papo de bêbado

- Você sabe que eu te acho muito gente boa, né?
- Eu sei, e sei também que você já bebeu demais.
- Bebi! Bebi mesmo! Mas você é muito gente boa! Todo gordinho é gente boa, já reparou?
- Tá me chamando de gordo? Não que eu não seja, mas...
- Olha a Fat Family, por exemplo! Todo mundo fica rindo o tempo todo, e mexendo o pescoço assim.
- Não é bem assim.
- É assim, então?
- Não.
- É, eu não sei mesmo! Você sabe mexer o pescoço igual a eles?
- Não.
- Todo mundo da Fat Family sabe mexer o pescoço daquele jeito!
- Mas eu não sou da Fat Family.
- Eu sei. Você não é tão gordo... Como será que eles fazem para mexer o pescoço daquele jeito?
- Deve ser algum tipo de gene recessivo comum na família. É o gene do pescoço solto, hehe.
- Pode ser! O mesmo que fez todos ficarem gordos...
- Eu estava zoando, se você não percebeu.
- Eu gosto de você pra caramba, cara! Todo gordinho é gente boa!
- Você já falou isso.
- Mas eu não falei o porquê!
- Fala, então.
- Porque eles não conseguem correr de uma briga, hehehe!
- Para sua informação, alguns dos caras mais brigões e cheios de marra que eu conheci eram bem gordos.
- Mas você não é brigão. Você é gente boa!
- Porque sou gordinho...
- Isso! Mas não é só por isso que você é gente boa...
- Pelo que mais, então?
- Porque você sabe mexer o pescoço igual ao pessoal da Fat Family!
- Eu não sei fazer isso!
- Sabe sim... Faz aí, para eu ver!
- Sem chance!
- Então imita o Caetano Veloso aí.
- Quem disse que eu sei imitar o Caetano Veloso?
- Imita aí, sô!
- Nem se fosse para você parar de me encher o saco.
- Então mexe o pescoço igual ao pessoal do Fat Family.
- Não vai rolar.
- Só porque você é gente boa, que eu não vou insistir mais.
- Beleza.
- É impressionante como todo gordinho é gente boa, né?
- Lá vamos nós de novo...


Via Trabalho Sujo.
Imagino que a humanidade inventou o terrorismo quando o homem primitivo descobriu que uma alternativa para acabar com a bagunça de seus filhos era amedrontá-los, em vez de espancá-los até a morte. Imagino até que o Bicho-Papão deva ter surgido nesta época:

- Quem derrubou a minha coleção de pedras?
- Não fui eu!
- Eu já falei que dentro da caverna não é lugar de brincar!
- Não fui eu, pai! Foi o Uglûhk-ük!
- Mentira! Foi ele sim!
- Calem a boca, vocês dois! Ou eu...
- Ou o que, pai? Você vai bater a minha cabeça na parede, igual você fez com o Glùhk-khk?
- Não. Aquilo fez a maior sujeira, e sua mãe briga comigo até hoje por causa da mancha.
- Você vai fazer o que então, pai?
- Eu vou chamar o... Eu vou chamar o Bicho-Papão para pegar vocês!
- O Bicho-Papão?!
- É!
- Quem é o Bicho-Papão, pai?
- Um bicho que vai comer vocês!
- Tipo aquele que comeu o Ukh-ükh-ghâlùkh, pai?
- Não. Aquele era outro! Se o seu irmão tivesse corrido mais rápido...
- Eu corro rápido!
- Mas ninguém consegue correr do Bicho-Papão!
- Oh! Então eu não vou mais brincar dentro de casa!
- Nem eu!

Com o passar do tempo, novas figuras foram adicionadas à lista de criaturas que não têm nada melhor para fazer da vida do que raptar crianças desobedientes, como o Monstro do Armário, o primeiro monstro enrustido, o Homem do Saco, que botava tanto medo no Chaves quanto a Bruxa do 71, ou o Tutu, que é uma variante do Bicho-Papão, e dá a impressão de se tratar de uma grande massa de feijão batido, com ovos cozidos no lugar dos olhos.

Não me lembro da minha mãe usar deste artifício de monstros devoradores/sequestradores de crianças, mas quando o bicho pegava e atingíamos o limite de sua paciência, ela partia para uma linha mais dura de ameaça, do tipo "um dia vocês vão acordar e eu vou ter sumido de casa", o que tinha muito mais credibilidade e dava muito mais medo que um monstro que parecia ser feito de feijão. Aliás, para se ter uma ideia de sua veia terrorista e sádica, quando aos 3 anos de idade eu tive que começar a usar óculos, ela me colocou em frente ao espelho e disse, para me convencer:

- Está vendo esse olho seu? Viu como ele está virando para dentro? Se você não usar os óculos, seu olho vai entrar para trás do seu nariz, e o médico vai ter que enfiar uma faca DESSE TAMANHO para tirar o seu olho para fora!

Um argumento tão eficiente, que eu nunca mais pensei em tirar os óculos. Por sua vez, um amigo do meu pai conseguiu ser mais bizarro. Certa vez, quando precisou manter os filhos quietos enquanto não estivesse por perto, ele retirou o seu olho de vidro, colocou-o sobre a cômoda e disse:

- Eu vou tomar banho, mas estarei de olho em vocês! Portanto, todo mundo quieto aí!

Darth Vader estava saindo do shopping, quando sentiu um distúrbio na Força. Ao olhar para trás, viu que era apenas um mendigo puxando sua capa:

- Senhor! Senhor, com licença! Bom dia, senhor! Senhor, desculpe incomodar, mas será que o senhor podia dar uma contribuição para a minha caixinha de Natal?
- Natal? O que é isso?
- É o nascimento de Jesus, senhor.
- Jesus?
- Aquele que veio ao mundo para trazer o equilíbrio e a paz, senhor.
- O que?! Eu que nasci para trazer o equilíbrio! Eu!!! Eu vou matar esse tal de Jesus!
- Ele já morreu, senhor.
- Pelo visto ele ainda não era forte na Força.
- Hã?
- Esqueça. O que você estava falando mesmo, meu rapaz?
- Eu estava pedindo uma ajuda para a minha caixinha de Natal, senhor...
- Ah, claro. Bom, eu acabei de comprar estas botas. Como elas ficaram boas, pode ficar com caixa, pois a sua está muito mulambenta. Ah, e vê se arruma um papel de presente melhor para embrulhar a caixa que eu te dei, em vez desse todo sujo e amassado.

Feliz Natal

Antes de começar, visualize a seguinte cena: pegue um colchão de espuma e enrole-o como a um rocambole. Amarre-o para que o formato não se desfaça, e coloque-o em pé. Agora guarde essa imagem do colchão amarrado...

Não sei como é em outras cidades, mas em Belo Horizonte os ônibus do transporte público urbano possuem, segundo meus cálculos apuradíssimos, uma média de 20% dos assentos destinados preferencialmente a obesos, gestantes, deficientes e idosos. Estes assentos localizam-se na parte dianteira dos veículos, numa pequena área compreendida entre a roleta e a porta da frente. Assim, não é difícil que este curto espaço fique cheio, prejudicando o embarque dos demais passageiros, como aconteceu há alguns dias.

Eu voltava para casa, e o ônibus que peguei deve ter passado em frente a uma casa de bingos, pois estava lotado de velhinhas de cabelos azulados. Como os assentos reservados a elas são poucos e todos estavam ocupados, algumas já se encontravam em pé no corredor. Enquanto eu aguardava a minha vez de embarcar, subiu a bordo uma senhorinha que parecia um colchão amarrado. Para piorar, ela carregava muitas sacolas, com presentes de Natal para seus netos, filhos, sobrinhos e "um mimo para a Eulália". Resultado: tomou completamente o corredor, impedindo a passagem de todos.

Como manda a boa educação, pedi licença à pequena e roliça senhora. Ela, bastante prestativa e educada, me ignorou solenemente, mantendo-se imóvel no meio do corredor. Em retribuição a tamanha gentileza, me espremi entre algumas de suas sacolas e passei como um rolo compressor por outras tantas, já que essa era a única forma de me desvencilhar daquela barreira que me separava dos lugares desocupados além da roleta. Outros passageiros utilizaram técnicas semelhantes ao enfrentar o mesmo obstáculo, mas alguns mais ousados preferiram espremer a pequenina colchão amarrado enquanto passavam. Todos, em retribuição ao fato de estarem perturbando uma pacata senhora, receberam como resposta um olhar do tipo "eu arrancaria sua orelha esquerda agora, se não estivesse segurando esse monte de sacolas".

O ônibus partiu, mas logo em seguida estava parando no próximo ponto, quando subiu a bordo uma senhora mais pitoresca que a primeira. Ela tinha aproximadamente 1,50m de altura, dos quais 1,90m eram de perna. Não, você não leu errado: ela tinha 1,90m de perna, mas sua altura era de apenas 1,50m. Além disso, ela era muito magra, usava grandes óculos escuros que dariam inveja ao Bono Vox e, para completar, trajava uma blusa estampada por dentro da calça, que por sua vez estava abotoada na altura da clavícula.

Esta senhora, que parecia um cruzamento da Yoná Magalhães com o Keith Richards, também teve que passar pela barreira de sacolas e colocou-se exatamente em frente à roleta, bloqueando o acesso. Assim, sempre que alguém precisava passar, ela olhava para a roleta, como se esta fosse desaparecer, e começava a contorcer-se de maneira semelhante a uma salamandra possuída fazendo pole dance, para dar passagem a quem quer que necessitasse. Como era um horário de bastante movimento, a cena se repetiu muitas vezes. Tantas foram que, quando cheguei ao meu destino, a dona Yoná Richards já estava toda descabelada e desarrumada, como uma Barbie violentada por um bando de guaxinins raivosos.

As duas senhoras certamente tiveram uma viagem bastante desconfortável, mas algumas questões não me saem da cabeça:
  • Por que pegar o ônibus justamente nos horários de maior movimento, quando se tem a opção de fazê-lo em horários mais tranqüilos? Por acaso os bingos ou igrejas não ficam abertos o dia todo?
  • Por que pegar um ônibus cheio quando pode-se esperar pelo próximo, mais vazio? A novela que está sendo reprisada é tão boa assim, a ponto destas senhoras terem que chegar mais cedo em casa?
  • Mesmo que ande de ônibus gratuitamente, por que a senhora das sacolas não deixou de gastar o dinheiro da pensão com "uma lembrancinha para a filha da Judith", para pagar um táxi no qual poderia carregar suas 382 sacolas de forma mais confortável?
Se algum dos 3 leitores deste blog souber as respostas, fique à vontade para deixá-las nos comentários. A mais criativa ganha um doce ;-)
Capítulo 1: Uma Polka Inesperada

Capítulo 2: Fogo e Água

Capítulo 3: Noite Sinistra

Sr. Johnson abriu a porta e não viu ninguém, quando sentiu algo subir à sua perna. Olhou para baixo e viu que se tratava de Catito, agora um cão zumbi, tentando copular com sua canela. Enquanto tentava desvencilhar-se do cachorro, Eek, o macaco zumbi, pulou em seu ombro e arrancou sua orelha esquerda na mordida. O homem gritou de dor e desesperou-se  ao ver Eek com sua orelha entre os dentes. Os dois piratas pegaram suas armas e exterminaram os animais zumbis. Ao certificarem-se de que o perigo havia passado, voltaram suas atenções às coordenadas misteriosas, sua maior preocupação no momento.

Barba Negra e Barba Branca debruçaram-se sobre o mapa, para traçar a rota até o ponto indicado pelas coordenadas, enquanto Sr. Johnson tentava fazer um curativo em si mesmo. Qual não foi a surpresa dos dois piratas quando o homem ferido atacou Barba Negra, mordendo-o no ombro.

- Pelas barbas do meu tataravô! - gritou Barba Branca - Ele está com uma espécie de raiva. Se eu não buscar o antídoto agora, nós três viraremos zumbis e a caça ao crânio roubado estará perdida! Oh, Dona Margarida, onde você se meteu? - questionou o pirata, que correu em direção à casa de Madame Sinistra, uma mulher estranha, possuidora de conhecimentos ocultos e a esperança de conseguir o antídoto.

Chegando à casa da Madame Sinistra, o pirata encontrou Sinistro, o abutre, repousando sobre a placa sinistra no jardim sinistro. O abutre voou e pousou ao lado de Sinistro, o gato, que descansava em uma almofada sinistra localizada sinistramente ao lado da porta sinistra da casa que possuía um ar sinistro, com janelas sinistras de onde aparentemente observavam olhos sinistros.

Barba Branca entrou na casa e foi tomado por um sentimento sinistro. Entretanto, o pirata recompôs-se quando, ao correr os olhos pelos inúmeros símbolos e figuras sinistras que enfeitavam a sala de espera, encontrou entre eles o brasão do dragão dourado. Quando aproximou-se brasão, Madame Sinistra entrou no aposento e saudou o pirata:

- Ôxe, o que você está fazendo aqui, Genovevo? Já não te falei que eu parei com aquela brincadeira de tirar a dentadura antes de fazer aquele... "servicinho"?
- Deixa disso, mulher! Hoje estou aqui porque preciso de suas poções, e não é aquela para ressuscitar o falecido! Barba Negra foi atacado pelo Sr. Johnson, que por sua vez foi mordido por um macaco zumbi, e preciso fazê-los voltar ao normal, porque temos uma missão muito importante!
- Para mordida de zumbi, eu só posso te dar uma coisa: esse machado para você matar os dois, antes que esse mal se alastre.
- Sei... Que brasão é este que eu nunca vi antes? É seu ou você ganhou de alguém?
- Esse brasão aqui, com o dragão dourado? Eu fiz na minha aula de papel maché.

Barba Branca não acreditou na história do papel maché, pois pensar na Madame Sinistra fazendo aula com outras pessoas normais era algo que não conseguia entrar em sua cabeça. Além disso, achou que ela tratou com descaso a questão da poção para salvar seus companheiros. Assim, ao sair da casa, pegou o primeiro frasco que viu, já planejando um retorno para verificar o brasão. Imediatamente após a partida do pirata, Dona Margarida saiu de um dos quartos sinistros, colocou-se ao lado de sua sinistra comparsa e perguntou:

- Conseguiu se livrar dele, minha querida?
- Ainda não, Xuxu. Ainda não...
Clique na imagem para ampliar:

Capítulo 1: Uma Polka Inesperada

Capítulo 2: Fogo e Água

Barba Negra pôs-se a correr, sem saber do que fugia. Quando alcançou a praça da cidade, viu a casa de Dona Margarida explodir à distância. Quando mal havia se recuperado do susto, o pirata notou que Barba Branca e Dona Margarida encontravam-se abraçados ao seu lado, com o objeto em forma de crânio em suas mãos. Tomado pela felicidade em ver os dois vivos, Barba Negra resolveu juntar-se ao abraço da dupla, mas foi prontamente afastado pela gorda senhora:

- Desgruda de mim, seu pirata imundo! Você também, seu maníaco!

Os piratas afastaram-se de Dona Margarida, que continuou segurando o crânio. Enquanto indagava-se a respeito de como os dois saíram ilesos da explosão, e da possível ligação do artefato com isso, Barba Negra avistou Sr. Johnson aproximar-se, trazendo em seus braços o macaco Eek e o pequeno cão Catito, aparentemente mortos na explosão.

Sem perder tempo com a morte dos animais de estimação, Barba Negra e Sr. Johnson voltaram suas atenções ao artefato que Dona Margarida não soltava. Examinando o objeto com atenção, notaram que ele agora possuía uma pequena fresta em sua parte superior, da qual esvaía uma espécie de névoa fantasmagórica, de cheiro horrendo. Eles não podiam conter-se de tanta curiosidade, mas deixaram para analisar o crânio mais tarde, já que precisavam antes de um lugar seguro para ficar. Barba Negra então sugeriu:

- Há espaço para todos em meu barco. Mas vocês tem que me garantir que essa coisa não explodirá de novo!

O grupo concordou com a ideia, e dirigiu-se ao porto. Quando chegavam perto do barco de Barba Negra, foram atacados por quatro homens grotescos, que tomaram o artefato das mãos de Dona Margarida e fugiram, pulando nas águas escuras do cais. Barba Branca sacou sua pistola e atirou na direção dos fugitivos, fazendo um líquido viscoso e esverdeado subir à superfície. Entretanto, aparentemente nada aconteceu às aberrações, que alcançaram um navio que as aguardava à distância. Este navio, que possuía uma bandeira vermelha com um belo e suntuoso dragão dourado, partiu imediatamente, seguido por uma grande serpente marinha.

Ainda abalados pelo ataque, Sr. Johnson e Barba Negra notaram que Dona Margarida era a única que mantivera-se tranquila o tempo todo. Após deixarem-na em segurança, os três piratas partiram rumo à taverna, a fim de acalmarem os ânimos.

Já era quase de manhã, e Barba Branca, de tão embebedado, jazia deitado na mesa da taverna. Sr. Johnson e Barba Negra, por sua vez, aproveitavam do estado de seu colega, e conversavam sobre a estranha calma de Dona Maria durante o ataque. Bastante intrigados com o fato, decidiram interrogá-la assim que voltassem ao barco, e partiram imediatamente, carregando o velho pirata desacordado. Chegando lá, não encontraram ninguém. Entretanto, depararam-se com um envelope vermelho preso ao leme do navio. O envelope fora selado a cera com o mesmo dragão dourado que viram na bandeira algumas horas atrás, e trazia uma carta na qual encontrava-se o desenho da lua cheia e algumas coordenadas geográficas.

Os três homens consultaram os números em um mapa, e viram que as coordenadas indicavam um local no meio do Oceano Atlântico entre a África e a América do Sul, no qual não havia indício de terra firme. Intrigados com o ocorrido, ficaram um tempo calados, apenas se entreolhando, na esperança de que algo acontecesse. Passados alguns minutos, ouviram algo arranhando a porta...